Debate sobre a inclusão de atletas trans volta a ganhar força
Atualizado: 1 de jun.
A participação de atletas transgêneros é oficialmente aceita pelo Comitê Olímpico Internacional (COI) desde 2003, quando a instituição definiu que a participação destes atletas seria permitida aos que se submetessem a realização de terapias de reposição hormonal e cirurgias de reconstrução genitália ao menos dois anos antes da competição em que desejavam participar. Segundo o Comitê, as esportistas que transacionassem do sexo masculino para o feminino poderiam ter vantagens sobre as atletas cisgênero.
No Brasil, a discussão ganha potência após o retorno da atleta de vôlei Tifanny Abreu ao país, que anteriormente estava atuando na Europa. Iniciando uma fase inédita na carreira pegando as novas recomendações do Comitê de 2015, onde a instituição entendeu que não haveria qualquer tipo de vantagem as mulheres trans se os níveis de testosterona presentes em seus organismos fossem equivalentes aos de uma mulher cis, e, assim, retirando a imposição de cirurgias de redesignação de gênero e substituindo-as por testes genéticos que comprovem que o nível de testosterona está dentro do permitido por, no mínimo, 12 meses consecutivos antes das competições.
O professor de educação física da UFRJ e autor do livro “A trajetória de mulheres trans pelo esporte brasileiro”, Rafael Marques Garcia, diz ser notório o atraso da visibilidade da pauta em relação ao exterior e que ela acabou sendo discutida de maneira equivocada: “Então, é nesse momento que Tifanny surge [...] e é nesse momento que a discussão começa a ganhar visibilidade aqui no nosso país. De uma maneira bem complicada, porque os veículos midiáticos se utilizaram de manchetes sensacionalistas". Para ele, isso continua sendo uma realidade com o uso das redes sociais. Rafael acredita que o mal uso da ciência é o principal fator para o surgimento e propagação de fake news na temática. “Porque muita gente às vezes pega um dado: "Ah, cita o artigo que falou que existe uma vantagem" e aí usa aquilo como se fosse uma verdade absoluta, aí vai na rede social, quer fazer aquele corte, quer fazer aquela fala bonita e tal. Então, é o mau uso da ciência isso, eu diria, né? Então, assim, e muita gente faz isso porque a ciência tem validade.”

Já em 2019, a Federação Internacional de Atletismo (IAAF) definiu que a concentração do hormônio deve ser inferior a 5 nmol/L de sangue como critério de elegibilidade para inscrição em categorias femininas - antes desta decisão, o limite era de 10 nmol/L. De acordo com a própria federação, a maioria das atletas cisgênero de elite apresenta cerca de 0,12 a 1,79 nmol/L, já homens cisgênero apresentam níveis entre 7,7 e 29,4 nmol/L. A sigla NMOL se refere a nanomole, uma unidade de medida definida pelo Sistema Internacional de Unidades (SI) - o padrão de medição global utilizado na ciência desde 1960 - e ela representa um bilionésimo de um mol (que já é uma indicação de quantidades extremas de partículas). O uso mais comum dessa unidade de medida é justamente em exames hormonais, servindo para identificar o nível de concentração de um determinado elemento no organismo.
Ademais, nota-se relevante destacar que todos os critérios e/ou restrições impostas aos atletas transgêneros dizem respeito exclusivamente a mulheres trans que desejam competir em categorias femininas. Desde as Olimpíadas de 2004, na Grécia, primeira edição na qual o COI aceitou abertamente a participação de atletas trans, não há restrições ou critérios de elegibilidade rígidos para atletas trans masculinos que desejem participar das competições nas modalidades masculinas, assim como não há obrigatoriedade de testes hormonais (além dos exigidos para a certificação de antidoping).
Em todas as edições dos Jogos Olímpicos, Laurel Hubbard foi a primeira, e única, atleta transgênero a competir em uma categoria feminina, marcando a história do esporte. A neozelandesa é levantadora de peso halterofilista e participou da categoria de mais de 87 kg na edição de Tóquio, em 2021, com 43 anos, mas ficou em último lugar em seu grupo e foi eliminada no início da competição. Nenhuma outra mulher abertamente transgênero ou que tenha realizado redesignação sexual participou dos Jogos Olímpicos desde então, devido às mudanças nas regras de elegibilidade aplicadas a grandes competições internacionais.
No dia 26 de março de 2026, Kirsty Coventry, ex-atleta e atual presidente do Comitê Olímpico Internacional, anunciou que a partir das Olimpíadas de Los Angeles (2028), nos Estados Unidos, apenas “mulheres biológicas” poderão se inscrever para as competições em categorias femininas. Apenas atletas que apresentarem um resultado negativo no teste SRY (do inglês Sex-determining Region Y) poderão se inscrever para os esportes olímpicos. Os Estados Unidos da América, país que irá sediar os Jogos Olímpicos de Verão de 2028, implementou uma política similar em julho de 2025.
O SRY consiste em um exame genético, desenvolvido por Andrew Sinclair em 1990, usado para identificar a presença do cromossomo Y no organismo, gene apontado como o principal ativo no desenvolvimento da puberdade no sexo masculino. O exame pode ser efetuado através de uma amostra de saliva, sangue ou um hissopo bucal (uma haste estéril macia utilizada para coletar células da parte interna da bochecha) e, conforme as diretrizes estabelecidas pela entidade, deve ser realizado apenas uma vez na vida de todos os esportistas. A detecção do cromossomo Y já é empregada em determinadas categorias, como natação, atletismo e ciclismo, esportes que já proibiram a elegibilidade de mulheres transgênero que passaram pela puberdade masculina. A instituição definiu que todos os testes devem ser de responsabilidade e supervisão de comitês nacionais e federações internacionais de cada modalidade.
Conforme comunicado por meio de carta aberta, a avaliação científica realizada pelo COI considerou consultas de 1,1 mil atletas e as opiniões especializadas de diretores médicos, endócrinos, especialistas em ciência do esporte, medicina transgênero, medicina esportiva, saúde da mulher, ética e direito. Apesar das afirmações, no comunicado, a instituição não revelou o nome dos profissionais responsáveis por conduzir tais estudos.
A endocrinologista Márcia Spressão chamou a decisão do Comitê de retrocesso: “Ele [COI] está tirando o direito da mulher trans de participar, porque o cromossomo Y ele vai ter eternamente, né? Um corpo que nasceu masculino.” Para além da exclusão de pessoas não cisgênero, a decisão, como explica Márcia, também afeta mulheres cis que nasceram com a Síndrome de Insensibilidade aos Andrógenos (SIA), onde um corpo feminino pode carregar cromossomo Y, porém não é completamente afetado pela testosterona: “Se ele [o embrião] é XX ou se ele é XY. Se ele tiver o Y, ele vai tender a desenvolver um corpo masculino. Ainda pode dar errado, dependendo da parte de desenvolvimento dessa formação desse testículo, as respostas dos tecidos ao testículo, que tem corpo que por malformação as células não respondem à testosterona. Então o testículo foi formado, produziu testosterona, mas as células não entenderam que tinha essa testosterona e o corpo é feminino. Então, parcialmente feminino, uma parte estaria totalmente feminino, mas forma um corpo com vagina, e vulva, sem pênis e tudo mais. Mas continua tendo Y.” Com isso, a instituição afirma que há possibilidades de exceções no sentido da participação dessas mulheres que apresentarem diagnósticos de DSDs (Diferenças no Desenvolvimento Sexual), mas elas estão condicionadas à comprovação de inexistência de benefícios relacionados aos efeitos anabólicos da testosterona.
Assim, a nova regra implementada pelo Comitê Olímpico Internacional dificulta que diversas atletas importantes para a história de seus esportes participem das competições. Caster Semenya, a bicampeã olímpica na corrida de 800 metros (2012 e 2016), por exemplo, já falou abertamente sobre possuir uma DSD, e por isso foi proibida de participar de competições que estivessem entre 400 e 1.500 metros e também não participou das Olimpíadas de Paris.
Um caso parecido pode ocorrer com Imane Khelif, boxeadora de 27 anos que foi centro de ataques preconceituosos ao ser erroneamente rotulada como mulher trans durante as Olimpíadas de 2024. A argelina, que conquistou medalha de ouro em Paris na categoria peso médio, é uma mulher intersexo e possui hiperandrogenismo (excesso de hormônios masculinos), devido a isso, Imane deverá passar pelo teste SRY para competir na edição de 2028. Em entrevista para o jornal italiano "La Gazzetta dello Sport", em 2025, Khelif anunciou que está disposta a realizar os testes, também comentou que a situação em Paris foi muito prejudicial, já que a atleta foi banida da World Boxing (Campeonato Mundial) devido aos rumores, mas que isto não abalou sua confiança: “Respeito as regras como estão escritas”.
Um mês antes da decisão do Comitê Esportivo, a Universidade de São Paulo (USP) havia publicado uma pesquisa, assinada por um grupo de estudiosos liderados pelo professor Bruno Gualano, da Faculdade de Medicina (FM), onde comprovam por meios científicos que pessoas transgêneras não possuem vantagens no esporte. Bruno Gualano acompanhou 52 pessoas para produzir a pesquisa, com o objetivo de comparar diferentes indicadores físicos utilizados para avaliar o desempenho esportivo, como força muscular, composição corporal e capacidade cardiorrespiratória; além de desbancar argumentos enviesados a respeito do assunto. O ensaio avaliou 52 estudos indexados em repositórios científicos para de compreender a diferença de desempenho entre atletas trans e cis, uma das principais descobertas na pesquisa foi o fato de que, após três anos de tratamento, as mulheres trans apresentam bem menos massa corporal em relação à mulheres cis.
Diante da decisão do COI, Bruno deixa claro que este estudo não fala em relação a atletas de alto rendimento pelo fato de ser raro encontrar jogadores trans neste nível, sendo assim, ainda não existem estudos que abrangem essa vertente, algo que também foi salientado por Rafael: “A falta de pessoas, atletas, mulheres trans em atuação no alto rendimento limita também a própria produção científica e pesquisas científicas com esse público.” O professor afirmou que políticas anti-trans, como a de Donald Trump, fazem com o que a tendência seja cada vez mais diminuir a participação dessas pessoas, o que reforça a dificuldade de pesquisar e aprofundar a temática. Entretanto, o professor Bruno afirmou que o banimento total desses esportistas não faz sentido, tendo em vista as incertezas acerca da temática.
Antes da puberdade, algumas características não são tão perceptíveis quanto na fase adulta. Márcia Spressão afirma que a grande produção de andrógenos, principalmente a testosterona, é o principal fator que salienta essa vantagem masculina em relação a força e desempenho físico. Já o endócrino Marco Aurélio Aguiar afirmou em entrevista que o tratamento hormonal de transição de gênero corta o efeito da testosterona no corpo, entretanto, a diferença de estrutura corpórea é algo que não mudará no processo de transição hormonal, o que também acaba se tornando o argumento mais usado contra a inclusão trans. Sendo assim, a densidade óssea é maior, a massa muscular, capacidade pulmonar e cardíaca são diferentes, assim como a proporção de membros que se encontram nas extremidades do corpo, tipo mãos e pés. Para Márcia, o argumento é fraco: “Se entre as mulheres que já nasceram mulheres, também tem diferença física e elas competem juntas. Então, por que uma que passou pelo processo de transição de gênero também não pode competir, né?”. Rafael concorda com esse posicionamento:
“Esse é um argumento interessante, mas ele ainda não se sustenta, é importante dizer, porque as pesquisas científicas elas não conseguem de fato afirmar com precisão qual é o impacto que a puberdade, sob influência desses hormônios, consegue trazer a longo prazo para esse corpo dessa mulher trans que está tomando o bloqueador de andrógenos e estão fazendo a reposição com estrogênio.”
O esporte, ainda segundo Rafael Garcia, não foi pensado para incluir pessoas de diferentes orientações, “O esporte que é um problema para a pessoa trans, porque a maneira como ele é construído está enraizado numa ótica cisgênero, então é masculino e feminino, então o sexo binário só ignora as diversas outras variações sexuais que a gente tem, e então fixa só essas duas.” E a transfobia, nome dado ao preconceito contra pessoas transgênero, é algo que inevitavelmente cerca a discussão, servindo como base para parte do público ser contra a inclusão e até atacarem fisicamente e emocionalmente os atletas. Rafael salienta isso ao dizer que no debate homens trans são invisibilizados e com as mulheres trans existe uma vigilância e um cercamento extremo da sua prática, de maneira violenta. “Falta de reconhecimento e de capacidade, porque quando a gente tem homens trans que começam a competir com homens cis e começam a ter grandes resultados, é, muitas vezes é dito que na verdade é uma mulher de ferro. Porque está tendo um rendimento tão bom a ponto de estar equiparado aos homens.”
Aly Maria Noel, psicóloga trans de 35 anos, indicou o esporte como um lugar cis-heteronormativo, onde a falta de conhecimento dá inicio ao preconceito: “Nós somos excluídos e por falta de conhecimento de um corpo trans, né? A transição, a hormonização, né? Todos os medicamentos usados para isso, o que que isso altera na fisiologia, na biologia das pessoas que tomam. Então, é a falta de conhecimento mesmo que gera essa dificuldade, ou melhor, o não querer nos aceitar nesses espaços, como do esporte.”
Uma atleta trans de basquete, que preferiu não se identificar, vivenciou a falta de oportunidade no meio e afirmou em entrevista nunca ter conseguido lidar da melhor forma com o preconceito enfrentado nas quadras. “O medo dele sempre foi maior, e fez eu me sentir deslocada em qualquer categoria ou time que eu jogasse”. A jogadora diz também sobre a falta de preparo dos times de lidar com diversidade, onde, apesar de ser respeitada com seus pronomes de preferência e nome social, ainda sim nunca foi verdadeiramente enxergada como uma mulher pelo seu time “Simplesmente ficava com medo de jogar livremente por causa do preconceito vindo das arquibancadas ou de outras atletas”, afirmou sobre quando jogava com o time feminino. Para Aly Maria, todas essas formas de excluir e diminuir vão afetar diretamente a saúde mental do atleta: “Impacta profundamente na autoestima. Nos sonhos, na realização como ser humano, no que quer, no que deseja”, Rafael reforçou o pensamento levando a cenários de opressão vividos diariamente dentro de casa, com as famílias, nas ruas, indo além das quadras, tendo como base a realidade do Brasil ser a 18 anos o país que mais mata pessoas trans no mundo “Será que a pessoa consegue chegar lá no alto rendimento com as mesmas oportunidades que uma pessoa cis conseguiu, sem passar por ansiedade, sem passar por hiper vigilância, né? Com medo de morrer na rua quando ela vai para o treino, né? Então, assim, todos esses aspectos precisam ser considerados nessa questão da vantagem.”
A atleta, levando como base sua experiência no meio esportivo, afirmou que o cenário atual ainda não sabe incluir e a atual decisão do COI apenas reforça um ambiente hostil para a existência transsexual. Segundo Rafael, os esportes deveriam repensar novas formas de incluir estes esportistas: “Então, será que as instituições esportivas não podem pensar em novas formas de classificar o esporte? Isso poderia favorecer com que pessoas trans pudessem se inserir, quebrando um pouco aquela barreira inicial que existe e, não pensando apenas em inclusão trans como também para pessoas não binarias e variações ambíguas do sexo".
Como conselho para novos atletas trans, a psicóloga Aly Maria incentivou ser necessário corpos trans ocuparem espaços que sob uma visão limitada e preconceituosa não foi feito para eles, e serem vistas como símbolo de resistência e força, a jogadora de basquete afirmou: “Não desista, o preconceito é muito desmotivador, mas você é mais forte que ele.”

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